Sábado, Abril 16, 2005

Nessa longa estrada da vida...

Foi ao som de Milionário e José Rico que eu comecei a notar o quanto desagradável a minha vida pode ser. É estranho ver que os tipos mais bizarros de pessoas podem estar todos num mesmo lugar: o ônibus.

Meu dia começa cedo, bem cedo. Em geral são 7:20 e eu estou na parada de ônibus, com meu cigarro a mão e a vizinha mal-humorada-loira-oxigenada do lado. A partir desse momento começam as minhas divagações, quem me conhece sabe que eu posso "viajar" sem estar chapado por caminhos que levam desde ao conceito do "nada" ao maravilhoso mundo de um louco.

Convivemos já a um bom tempo, ela tem cachorro, é separada, mas mora com o marido. Não abre a boca para dizer um bom dia, eu nunca me lembro do nome dela e com ela eu passei uma das situações que eu mais odeio passar: tentar começar o dia bem cumprimentando alguém e a pessoa te ignorar sumariamente. Desde desse momento, eu declarei uma guerra pessoal contra ela e seu cachorro, inclusive comecei a admirar o marido que a largou. Enfim, toda a amanhã agora eu travo com ela uma guerra silenciosa na qual a chingo em meus pensamentos e imagino o dia em que ela vai estar sendo estrupada em frente de casa e eu passarei e olharei dentro de seus olhos dando um sonoro "Como vai?".

Mas não é nada disso que eu quero falar aqui... mas sim do momento que sucede tal fato rotineiro. O ônibus. Entrar num ônibus cheio é pedir pra odiar ao "povo". É lá dentro que tudo se resume, que o conceito de "povo" fica claro. No começo da manhã, então... aonde alguns exalam cheiro de sabonete barato que chega a atacar a minha renite alérgica e outros a contraponto disso já conseguem exalar um odor das axilas que é no mínimo nauseante.

É quando solto o primeiro espirro do dia e começo a ficar enjoado que entra alguma mulher com um bebê a chorar, em seguida um velho que mal pode com as pernas e usa "uma chinela" que deixam bem a vista uma craca que ele deve cultivar a anos, talvez desde a adolescencia... Fora isso pode se ver unhas pretas, encravadas, quebradas, enfim, um trabalho de dias para a melhor pedicure com estômago do mundo.

Resolvo então passar a catacra, o ônibus está lotando e eu tenho esperança de achar um lugar bem perto a porta, de preferência em uma daquelas poltronas sozinhas, para que assim não tenha que aguentar durante 40 minutos alguma presença desagradável ao meu lado. Mas disso eu falo depois.

Quando insiro o cartão, claro que ele não vai passar de primeira... eu terei de exercitar a minha paciência durante no mínimo umas três ou quatro vezes, até que uma luz verde se acenda e catacra esteja livre. Enquanto isso, num breve olhar vejo a cobradora tricotar, aquela figura ali sentada merece uma descrição. Cabelos quase brancos de tão loiros, gordinha, presumo de tanto ficar sentada... a pele desde manhã cedo já demonstra os primeiros sinais de oleosidade aflorando... talvez seja por isso que ela passe o dia em uma guerra silenciosa contra seus óculos que tendem invariavelmente a descer pelo nariz.

Tento me desvencilhar da visão da cobradora gorda e de aparência oleosa, me seguro nesse "puta-merdas" enormes que correm o veículo do início ao fim. Que nojo. Imagino eu quantos não ali seguram. Quantos não se maturbam, não vão ao banheiro, não tem pestes características do povo e assim por diante... e mesmo assim ali seguram, como se aquilo fosse o símbolo do "comunitário", qualquer um tem direito sobre aquele "puta-merda", não interessa em que grau de decomposição o indivíduo esteja. Todos iguais tentando não cair diante das curvas fechadas e do entra e sai de gente através daquele cano pegajoso de metal, aonde restos de suor e bactérias se espalhavam e o "povo" se equilibrava, com braços erquidos, para assim disseminar ainda mais o cheiro já bem mais forte que me remete a pensar o quão caro é um desodorante... ou quem sabe é a pele do povo que tem esse cheiro inerente já mesmo?

Nisso já estamos no meio de nossa jornada... estou sentado, consegui uma poltrona dessas sem par, tenho trauma de que tipo de pessoa possa querer sentar ao meu lado. Seria isso muito arrogante? Mas que coisa, não consigo fingir que gostaria de sentar com a moça crente de cabelos que descem até a bunda, aonde escorrem pingos de água meio branca... Suponho por causa do creme mal enxaguado pelo cheiro... Cheiro de creme barato, "asa", ar matinal, sabonete, enfim, uma profusão que leva a loucura o sentido do olfato... mas não é ele o mais atingido pelo andar da carruagem.

Talvez a visão? Mas não... eu até consigo suportar todas aquelas faces risonhas, felizes por começar mais um dia daquele jeito, se esperemento uns contra os outros, num movimento brusco que faz uns cairem sobre os outros. A visão do inferno. Mas ainda de um inferno suportável.

É quando acordo de meus pensamentos e começo a escutar... é incrível como a banalidade daqueles ruídos todos me irrita, são comentários típicos de quem não espera nada além de um dia que irá passar e dar lugar ao outro. Falam do vizinho, da novela, do BBB, da atriz que se separou, do futebol, da promoção do mercado.

Falam, falam, falam.

Falam como se o importante no mundo fosse falar, se comunicar, riem alto, soltam ruídos com a boca, creck, creck, é o homem da frente a roer suas unhas.

Todos se conhecem, todos se dão "oi", eu mantenho meu olhar baixo, levantando só para analisar. Não pretendo me arriscar a ficar amigo de um "deles". Eles são apenas o "povo".

"Eles" são apenas trabalhadores, gente que mantém o cotidiano inalterado, sem esperança maior do que conseguir a sexta depois do feriado de folga no trabalho, gente que lê "TiTiTi", assiste Gugu, gente que invariavelmente é a maioria esmagadora deste nosso país.

Mas eu não pertenço a essa estirpe, eu sou elite. Eu sou hipocritamente melhor que cada um deles. Afinal que valor pode ter um povo que foi acostumado a trabalhar e a trabalhar. Que sonhos tem um povo assim? Que chances cada um desses tem?

Dentro do ônibus todos valem a mesma coisa.

Todos se sentem entre os seus, longe de olhares atrevessados de gente como eu, talvez por isso o sorriso matinal tão característico, a risada alta, o velho da craca a dar uma bergamota ao motorista... um incrível bom humor de quem só tem a sustentar aqueles que deitam em berço esplendido, um sorriso daqueles que só trabalham no sentido mais pesado e arcaico da palavra, daqueles que são apenas o "povo".

5 Comments:

Anonymous Bila said...

Hahahahahaha, daria uma ótima crônica pra zero hora... só achei meio arrogante em algumas partes, mas tá bem divertido!
Beeeee

12:25 AM  
Blogger Urd said...

Compre um carro ou more em Alto de Pinheiros! 8-)

10:15 AM  
Blogger Peregrino said...

Cara, vc gosta de escrever..mas mantenho o que a Urd disse, compre um carro.

4:14 PM  
Blogger Peregrino said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

4:14 PM  
Blogger Peregrino said...

Outra coisa, pq vc usa Candido no Msn?

4:16 PM  

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